Archive for março, 2010

Virna Teixeira

domingo, março 14th, 2010

virnafoto1-vert Também pelo selo Orpheu está a poeta  Virna Teixeira.

Virna Teixeira nasceu em Fortaleza (CE) em 1971. Poeta, tradutora e neurologista. Vive em São Paulo. Tem 3 livros de poemas publicados: Visita (2000) e Distância (2005) pela 7 letras e Trânsitos (2009) pela Lumme Editor. Publicou também os livros de tradução Na Estação Central, do poeta escocês Edwin Morgan (Editora UnB, 2006); a antologia de poesia escocesa Ovelha Negra (Lumme, 2007); Libro Universal, do poeta chileno Héctor Hérnandéz Montecinos, em parceria com o tradutor Vanderley Mendonça (Demônio Negro, 2008) e Cartas de Ontem, do britânico Richard Price (2009). Tem participado em diversas antologias de poesia no Brasil e exterior. Seu livro Distância foi traduzido e editado no México (Lunarena, 2007) e também teve um livro publicado na Argentina (Fin de siècle, Coleção Chicas de Bolsillo, Universidad de La Plata). Organizou vários encontros nacionais e internacionais de poesia e atualmente é responsável pela Arqueria Editorial (www.arqueria.wordpress.com), que edita plaquetes artesanais.

Pelo selo Orpheu de poesia, Virna Teixeira está relançando o livro Visita (lançamento em Junho).

Abaixo um dos poemas do livro Visita:

Volátil

percorria o cenário:
olho veloz
turbilhão de movimentos
atentos
abria um buquê
de deli-
cadezas
descrevia uma curva no ar
uma curva na curva
do lugar onde
……….[se esconde.

Claudio Daniel

sexta-feira, março 12th, 2010

Foto Claudio Outro poeta a fazer parte do selo Orpheu,  é Claudio Daniel.

Claudio Daniel é poeta, tradutor e ensaísta. Publicou, entre outros títulos, os livros de poesia Sutra (1992), Yumê (1999), A sombra do leopardo (2001, prêmio Redescoberta da Literatura Brasileira, oferecido pela revista CULT), Figuras Metálicas (2005), Fera Bifronte (2009), que recebeu a bolsa de criação literária da Funarte, e Letra Negra (2009). No campo da ficção, publicou o livro de contos Romanceiro de Dona Virgo (2004). É editor da revista de poesia e debates Zunái (www.revistazunai.com) e organizou festivais e eventos literários, entre eles o Tordesilhas, Festival Ibero-Americano de Poesia, realizado em São Paulo em 2007, e o Artimanhas Poéticas, realizado no Rio de Janeiro em 2009. Como tradutor, publicou a antologia Jardim de camaleões, a poesia neobarroca na América Latina (2004), além de livros do poeta argentino Reynaldo Jiménez, do uruguaio Victor Sosa, do dominicano Leon Félix Batista  e do cubano José Kozer, entre outros. Em 2005, lançou a antologia Ovi-Sungo, 13 Poetas de Angola.

Pelo selo Orpheu de poesia, Claudio Daniel está relançando o livro A sombra do leopardo (lançamento em Junho).

Abaixo um dos poemas do livro A sombra do leopardo:

Dante

(Inferno, I, 31-42)

Um jardim, ver a sombra e além
da estrela, ver a terra
furiosa; tempo
é o que incendeia,
fera — insânia —
esfera; e de esfera
em esfera, afoga
teu suplício
em gruta de ecos.
Chora, do fundo
do olho, clama
ao Deus cabalístico.
Até vislumbrar
a sombra do leopardo;
até saber que forma
é vazio, silêncio
(ou brancura)
oculto em palavra
e paisagem.
Até saber que Dor
é um modo de ver
o escuro, outra
hipótese
de luz.

1999

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José Geraldo Neres

terça-feira, março 9th, 2010

Jose Neres JPEG-vert Integrando também a coleção Orpheu está o poeta José Geraldo Neres, um dos mais expressivos poetas da nova geração.

José Geraldo Neres nasceu em Garça, SP, em 1966. Poeta, roteirista, dramaturgo e produtor cultural. Publicou o livro de poesia Outros Silêncios, Prêmio Programa de Ação Cultural da Secretaria de Estado da Cultura de São Paulo 2008, (Escrituras Editora, 2009); e Pássaros de papel (Dulcinéia Catadora, edição artesanal, SP, 2007). É co-fundador do grupo Palavreiros. Integrante do Grupo Gestor & Conselho Editorial do Ponto de Cultura Laboratório de Poéticas (Programa Cultura Viva, do Ministério da Cultura), e responsável pela seção Outra Margem da revista homônima. Atuou como assessor literário da Secretaria de Cultura de Diadema (2005/2008) e, posteriormente, curador da Sala Permanente de Vídeo/Documentários da VIII Bienal Internacional do Livro do Ceará (nov. 2008). Em 2009 foi jurado da etapa inicial do Prêmio Portugal Telecom de Literatura.

Este poeta considerado por Claudio Willer o “indício de uma renovação” na poesia brasileira; José Neres, prestigia o selo Orpheu com o livro Olhos de barro (lançamento em Junho).

Abaixo um dos poemas do livro Olhos de barro:


ANTES NÃO HAVIA ESTE FRIO

Finalmente, encontrei minha sombra. Um pouco de água. A casa está diferente. As luzes não sabem o motivo de estarem acordadas. Sinto o frio das casas vizinhas. São casas ou barcos à espera do próximo dilúvio? Nem calor nem frio. Esse líquido faz os pés doerem. A sombra faz um barulho. Água. Sou capaz de sentir sua respiração ― o Outro a atravessar a parede.

― Estou à sua espera.
― Cuidado, sou o vôo subterrâneo. Procure não demonstrar medo. Os olhos são o corpo do Outro. Sinta o milagre. Somos pó.
― Estou à sua espera.
― Quatro dias, tudo se encaixa, sinta a diferença nas suas chagas.
― A água.
― Pendure-se em minhas asas! As águas não sabem o motivo de existir vítimas ou milagres.
― Vamos, temos que encontrar os Outros. Essa parede nunca esteve aqui.

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Comentário:

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(O TEXTO ENTRE PAREDES)

Tanto quanto a um Prometeu acorrentado à procura de imagens que implodam o inaudito, este novo José Geraldo Neres se vincula também a uma outra mitologia: a do Gênesis. O barro, aqui, para além de incluir os jogos da infância, as brincadeiras em torno da construção da casa e dos outros, carrega o grão mítico da criação, o que engendra os olhos capazes de inaugurarem um inesperado mundo novo – mercê do nome, mercê dos modos outros de designação.
“Hijos del limo” (como na linhagem poética identificada por Octavio Paz), as miradas destes “olhos de barro” (para dentro ou para fora de si) brotam outras palavras, “outros silêncios”: signos soltos à deriva, frases escuras e emparedadas, palavras difíceis que se transubstanciam em odores, sombrios vocábulos no encalço da luz, falas de outros poetas, nomes – poesia, poesia, poesia…
Um homem, aprisionado ao seu corpo (esconderijo, labirinto, poço escuro, clausura) busca uma saída: ser muitos. E então os nomes, como que eclodindo do útero primevo, pródigos ainda da terra úmida, despontam na página e transbordam para todos os lados. E brincam de esconde-esconde, misturam-se ainda à água e se rebatizam – encontram-se em estado de infância. Tateiam o mapa do seu futuro, consultam bússola e diretrizes, discutem, dialogam, emprestam-se, perscrutam as fronteiras, constróem sua morada. E praticam o sacrifício.
Porque o regime que aqui vigora para a obtenção da liberdade e do verbo é o de penitências – entrelugar de tormentas, de espelhos cegos, de muros cerrados; do palco, do teatro, da cena, do disfarce – sob um tempo implacável de relógios, silêncios e sombras.
O corpo é o eixo da nomeação. Ele é a casa da palavra, o texto habitável, o teto sob o qual o rito se cumpre pacientemente. Janelas e portas, quarto e cômodos, cortinas e paredes, chão e pedras e chaves (ou corpo, pele, rosto, boca, dentes, riso) – são os pontos cardeais da fortaleza a ser assaltada ou preservada, escapes ou aberturas para a instauração dos nomes e das imagens, conforme se dê o embate com o outro, conforme a palavra-de-ordem para cada caso, para cada acaso.
A poesia é uma operação que demanda calma, controle, serenidade, conhecimento do limiar, experiência do limite. E ela se dá sob a égide de uma semântica que percorre subrepticiamente a mais notável referência sacrificial do Ocidente, apropriando-se desta a seu bel prazer (invertidamente, muitas vezes), para reinvocar a dor, a dúvida, o erro, o medo, a culpa, a queda; a cruz, as chagas, as feridas, as lágrimas, as marcas; o tributo a ser pago, a condenação; o cálice, a corda, o veneno, o sangue, a morte. Mas também o prodígio da ressurreição.
Os santos, os anjos, os milagres, os cordeiros, a igreja, o terço e a profecia hão de conduzi-la à palavra eleita, ao ventre de deus, ainda que a poesia seja esse “deus vermelho” a escorrer da boca do mesmo corpo imolado. É assim que “suas unhas” varrem “uma tempestade para detrás da porta”, que “o voo dos cordeiros não termina em mim”, que os “pássaros” têm “quatro folhas”, que no “meu corpo carrego as (…) escamas dos pecadores”, que a infância é um “pássaro embalsamado” e que “as pedras são ramos de água”. Afinal, “qual o lado da noite que umedece primeiro?” Afinal, que parênteses podem conter este corpo – este texto?

Maria Lúcia Dal Farra.

Marcelo Ariel

domingo, março 7th, 2010

cats

Estreando a coleção Orpheu está o poeta Marcelo Ariel, considerado um dos grandes poetas da nova geração da poesia brasileira.

Nascido em Santos (SP) em 1968, Marcelo Ariel estreiou na poesia com o livro Me enterrem com a minha Ar-15 (Dulcinéia Catadora, edição artesanal, 2007); depois lançou os livros Tratado dos Anjos Afogados (Letraselvagem, 2008)  e O céu no fundo do mar (Dulcinéia Catadora, edição artesanal 2009). Poeta e dramartugo, Marcelo Ariel, é melhor visto como poeta transgressor ao unir diversas camadas de linguagem do mundo pós-moderno a poesia.

A coleção Orpheu tem o prazer de estreiar com o poeta Marcelo Ariel lançando sua obra Conversas com Emily Dickinson (lançamento em Maio).

Abaixo um dos poemas do livro Conversas com Emily Dickinson:

CARTA PARA A MORTE

Imagino Camões, a vala onde morto estava;
O quarto onde encontraram o cadáver de João Antônio;
O sapato que Antonin Artaud segurava;
No paletó de Garcia Lorca a flor intacta;
A cama molhada de suor do último sono de Caio F.;
O prato vazio que caiu das mãos de Óssip Mandelstam;
Os círculos na água provocados pelo corpo de Paul
Celan…

Devo parabenizá-la por estes momentos de uma estilística
sempre surpreendente,
somente às vezes ofuscada pelos lampejos precários desta
luz fraca que caminha nas capas…

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Comentários:

a poesia, ao não conversar com ninguém, conversa com todo mundo. daí o perene “contornos de névoa” de toda poesia q não é reprodução de prosas mal acabadas. marcelo ariel luta por essa palavra numa guerra sem fim. isso q é apenas um “buraco da árvore da linguagem”. o essencial q se esconde. e apenas raramente aparece. e aparecendo deve ser eliminado. calado, esquecido. tocar a poesia como faz marcelo ariel é perigoso. não apenas a linguagem fica nua, não apenas o real estremece como a água depois da pedra, mas há algo de insolente nessa passagem do poema por um território de poetastros e poeminhas. entre nós “algo imensamente raro” costuma ser silenciado. cabe a alguns tentar manter essas “águas sonhando” longe das malhas devoradoras do poder da oligarquia das letras. sim, “as coisas são um incêndio” e marcelo ariel sabe manter o fogo acesso na nossa idade do gelo. “Lá fora/o poder de/um fantasma/destrói o mundo”. e o poema entra em guerra porq apenas ele pode fazer frente a isso. ele mesmo, isso q de tão frágil, não pode sequer ser tocado. ele sabe, a poesia sabe, q “a verdade é impossível com a linguagem”, q o diálogo é impossível, mas assim mesmo continua. é essa a força do poema de marcelo ariel: resistir mesmo sabendo q, por perder, já ganhou. como no poema “o paradoxo”, onde tudo gira em torno, e se abre ao enfrentamento essencial da arte, esse q querem substituir por um silencio atordoado, seja das mídias, das pedagogias, das teorias castradas. e todas as matérias, poetas, linguagens, raivas, deslumbramentos, delírios, teatros, filosofias, artes chegam pros poemas de marcelo ariel, poemas plásticos, construídos por um delírio lúcido q apenas um poeta pleno consegue atingir, apenas a poesia consegue ainda erguer das mediocridades. este é um livro q resgata a “vida secreta”, esquecida, do fazer poemas em guerrilha, em surdina, poemas q passam a fazer parte da nossa visão de mundo, do nosso viver e elevam o patamar rasteiro e silvestre da “poesia nacional”. e o silêncio de emily dickinson torna a invadir sem se repetir, pois já não há diálogo possível. os poemas se instauram como olhos. marcelo ariel, “no mesmo não-lugar atemporal dos Nomes-Nume lendo a árvore”, continua uma conversa antiga, partida, devorada, agora retomada por quem sente falta das grandes forças. enfim poderemos, mais uma vez, atravessar a morte, com alegrias e tristezas, longe do torpor dentro dos desertos q criamos.

Alberto Lins Caldas

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Temos, nesse Conversas com Emily Dickinson, o encontro entre uma poeta (1830-1886) que não se entrega fácil, buscando o inefável numa dicção elíptica, quase balbuciante (a gramática normativa tem muito que aprender com a poesia pura), em imagens onde a natureza é mística – nunca religiosa – e um poeta que, ao contrário, convoca todos os espectros, objetos, presenças pesadas da cidade que ele atravessa em seu passo único, essencial para ir além do construído e chegar ao real, isto é, ao sentido até então oculto daquilo que parecia ser tão raso não fosse a poesia e seu olhar de microscopista. Entre o que emana da norte-americana do século XIX e o que vocifera no brasileiro do início do século XXI há convergências que só a poesia conhece. E o leitor de poemas, naturalmente, identifica.

Marcelo Ariel é um jovem – para a literatura feita de lirismo, 42 anos é juventude – que brotou do chumbo no ar da realidade dura na qual sobreviveu com uma luta nada lírica, e que chegou até o território da selvagem sabedoria de resgatar-se e à sua humanidade pela palavra, amadurecendo, assim, bem antes do previsto. Seu verso é sua cachaça (o crítico pede licença para parafrasear Drummond). E nele ele pode entregar o máximo do que carrega e daquilo que igualmente o carrega – embora sem calá-lo –: “preferindo os tormentos / do espírito como vícios / que nenhuma razão desintegra.”

Emily Dickinson encontrou um interlocutor capaz de escutá-la e de lhe dizer. Cabe a nós, leitores de ambos os poetas, a coragem de entregar-nos à emoção que esse testemunho, através deste livro, nos causa. Meu conselho: faça como eu. Mesmo atingido, desde o 56o verso, pela força enorme da expressão, continuei em frente, até o fim. E terei ainda forças de recomeçar, pela releitura.

Paulo Bentancur