Integrando também a coleção Orpheu está o poeta José Geraldo Neres, um dos mais expressivos poetas da nova geração.
José Geraldo Neres nasceu em Garça, SP, em 1966. Poeta, roteirista, dramaturgo e produtor cultural. Publicou o livro de poesia Outros Silêncios, Prêmio Programa de Ação Cultural da Secretaria de Estado da Cultura de São Paulo 2008, (Escrituras Editora, 2009); e Pássaros de papel (Dulcinéia Catadora, edição artesanal, SP, 2007). É co-fundador do grupo Palavreiros. Integrante do Grupo Gestor & Conselho Editorial do Ponto de Cultura Laboratório de Poéticas (Programa Cultura Viva, do Ministério da Cultura), e responsável pela seção Outra Margem da revista homônima. Atuou como assessor literário da Secretaria de Cultura de Diadema (2005/2008) e, posteriormente, curador da Sala Permanente de Vídeo/Documentários da VIII Bienal Internacional do Livro do Ceará (nov. 2008). Em 2009 foi jurado da etapa inicial do Prêmio Portugal Telecom de Literatura.
Este poeta considerado por Claudio Willer o “indício de uma renovação” na poesia brasileira; José Neres, prestigia o selo Orpheu com o livro Olhos de barro (lançamento em Junho).
Abaixo um dos poemas do livro Olhos de barro:
ANTES NÃO HAVIA ESTE FRIO
Finalmente, encontrei minha sombra. Um pouco de água. A casa está diferente. As luzes não sabem o motivo de estarem acordadas. Sinto o frio das casas vizinhas. São casas ou barcos à espera do próximo dilúvio? Nem calor nem frio. Esse líquido faz os pés doerem. A sombra faz um barulho. Água. Sou capaz de sentir sua respiração ― o Outro a atravessar a parede.
― Estou à sua espera.
― Cuidado, sou o vôo subterrâneo. Procure não demonstrar medo. Os olhos são o corpo do Outro. Sinta o milagre. Somos pó.
― Estou à sua espera.
― Quatro dias, tudo se encaixa, sinta a diferença nas suas chagas.
― A água.
― Pendure-se em minhas asas! As águas não sabem o motivo de existir vítimas ou milagres.
― Vamos, temos que encontrar os Outros. Essa parede nunca esteve aqui.
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Comentário:
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(O TEXTO ENTRE PAREDES)
Tanto quanto a um Prometeu acorrentado à procura de imagens que implodam o inaudito, este novo José Geraldo Neres se vincula também a uma outra mitologia: a do Gênesis. O barro, aqui, para além de incluir os jogos da infância, as brincadeiras em torno da construção da casa e dos outros, carrega o grão mítico da criação, o que engendra os olhos capazes de inaugurarem um inesperado mundo novo – mercê do nome, mercê dos modos outros de designação.
“Hijos del limo” (como na linhagem poética identificada por Octavio Paz), as miradas destes “olhos de barro” (para dentro ou para fora de si) brotam outras palavras, “outros silêncios”: signos soltos à deriva, frases escuras e emparedadas, palavras difíceis que se transubstanciam em odores, sombrios vocábulos no encalço da luz, falas de outros poetas, nomes – poesia, poesia, poesia…
Um homem, aprisionado ao seu corpo (esconderijo, labirinto, poço escuro, clausura) busca uma saída: ser muitos. E então os nomes, como que eclodindo do útero primevo, pródigos ainda da terra úmida, despontam na página e transbordam para todos os lados. E brincam de esconde-esconde, misturam-se ainda à água e se rebatizam – encontram-se em estado de infância. Tateiam o mapa do seu futuro, consultam bússola e diretrizes, discutem, dialogam, emprestam-se, perscrutam as fronteiras, constróem sua morada. E praticam o sacrifício.
Porque o regime que aqui vigora para a obtenção da liberdade e do verbo é o de penitências – entrelugar de tormentas, de espelhos cegos, de muros cerrados; do palco, do teatro, da cena, do disfarce – sob um tempo implacável de relógios, silêncios e sombras.
O corpo é o eixo da nomeação. Ele é a casa da palavra, o texto habitável, o teto sob o qual o rito se cumpre pacientemente. Janelas e portas, quarto e cômodos, cortinas e paredes, chão e pedras e chaves (ou corpo, pele, rosto, boca, dentes, riso) – são os pontos cardeais da fortaleza a ser assaltada ou preservada, escapes ou aberturas para a instauração dos nomes e das imagens, conforme se dê o embate com o outro, conforme a palavra-de-ordem para cada caso, para cada acaso.
A poesia é uma operação que demanda calma, controle, serenidade, conhecimento do limiar, experiência do limite. E ela se dá sob a égide de uma semântica que percorre subrepticiamente a mais notável referência sacrificial do Ocidente, apropriando-se desta a seu bel prazer (invertidamente, muitas vezes), para reinvocar a dor, a dúvida, o erro, o medo, a culpa, a queda; a cruz, as chagas, as feridas, as lágrimas, as marcas; o tributo a ser pago, a condenação; o cálice, a corda, o veneno, o sangue, a morte. Mas também o prodígio da ressurreição.
Os santos, os anjos, os milagres, os cordeiros, a igreja, o terço e a profecia hão de conduzi-la à palavra eleita, ao ventre de deus, ainda que a poesia seja esse “deus vermelho” a escorrer da boca do mesmo corpo imolado. É assim que “suas unhas” varrem “uma tempestade para detrás da porta”, que “o voo dos cordeiros não termina em mim”, que os “pássaros” têm “quatro folhas”, que no “meu corpo carrego as (…) escamas dos pecadores”, que a infância é um “pássaro embalsamado” e que “as pedras são ramos de água”. Afinal, “qual o lado da noite que umedece primeiro?” Afinal, que parênteses podem conter este corpo – este texto?
Maria Lúcia Dal Farra.