Saia da Gaveta!

“Podemos imaginar um autor sem contatos para apadrinhá-lo, sem a disposição para uma publicação independente ou para ficar alimentando um blog. Esse autor sem brio e paciência possui talento literário, mas é “só”, algo insuficiente, óbvio. Assim, podemos visualizar a sua desistência completa. Ele havia feito o concurso para o Banco de Brasil há alguns anos e foi chamado agora. Está no setor de abertura de contas, observando a estranha verruga na bochecha da bela cliente à frente, enquanto que, dentro dele, grandes clássicos em potenciais da nossa literatura estão se apagando lentamente.”


Este pequeno fragmento de texto foi retirado do blog Ângulo de Marco Polli mais especificamente deste post intitulado “Tantas Palavras” e esboça, em parte, uma quase confissão de fé literária por parte dos editores deste selo. Não acreditamos na existência de “livros em potencial” ou de “talentos obscurecidos” – só existe o livro que está pronto, impresso; e o talento só se expressa, só é talento, se se transparece em coisas concretas. Do mesmo modo o autor, antes de ser autor, é uma pessoa, está inserido em sua existência e sua realidade com todas suas contingências e necessidades.

Não queremos libertar o tal autor, hoje funcionário do Banco do Brasil, cuja liberdade prescinde seus “clássicos em potencial” – muito pelo contrário. Não há autor fora de sua realidade. Quem sabe se escrevendo sobre a tal estranha verruga na bochecha da bela cliente, não sairá daí uma boa literatura? Por que não retratar o cotidiano do funcionário bancário? Descrever seus desejos, seus medos, suas vitórias e frustrações – por mais simples e rotineiras que sejam? Pois é disso que é feito a existência humana. Há uma corrente literária que pressupõe a literatura como algo produzido e consumido para “se escapar da realidade”; não concordamos com isso. Literatura deslocada da realidade, presa em alegorias e símbolos, salvo raríssimas exceções, dificilmente é literatura. Não passa de contos de fadas ou, quando muito, teses filosóficas mal redigidas e muito longe do rigor lógico necessário para o encadeamento de idéias. Se você quer retratar idéias, porque vesti-las com chapéu, dar-lhes um emprego, amigos, coisas que, por fim, só irão acanalhar as idéias e compor uma literatura chinfrim? Por que dar-lhes complicações filosóficas e sentimentais que, a bem da verdade, não coadunam com a realidade e nos esforçamos por entender (já que sentir é impossível)? Não vemos qual seria o propósito de tal literatura.

Por isso acreditamos no autor funcionário do Banco do Brasil enquanto funcionário, estudante, pai de família, motorista, professor ou seja lá qual ocupação ele tiver – até se for escritor. Não existe um autor apartado da realidade, vivendo nos jardins de um rei ou autoridade eclesiástica. O tempo dos mecenas sustentando artistas já acabou. Não há mais “artistas” vivendo uma áurea existência diferenciada, distante das artificialidades mundanas. Tampouco existem confrarias literárias onde, sem maiores preocupações, um literato se ocupa em exaltar as qualidades da pátria ou de outrem em troca de financiamento. Por isso acreditamos que os clássicos estão ali, provavelmente escondidos na gaveta da mesa do funcionário. Talvez perdido em meio aos arquivos do Word.

Boa literatura não é fruto de uma vida diferenciada, de conhecimento literário ou de profissionalismo da palavra; tampouco é fruto de círculos literários, de amizades em círculos literários ou de sucesso em círculos literários (sejam eles virtuais ou não). Nome ou fama não fazem literatura, apenas ajudam a vendê-la. Diferente do que alardeiam por ai, não é preciso ser um pavão vaidoso a ostentar seus próprios feitos literários para ser publicado (ou para ganhar um certo tipo de glória inútil). Pelo menos não aqui, no selo Terceira Margem. Boa literatura é fruto apenas de vivência concreta e de um bom domínio da língua. Portanto se você vive a sua vida e, entre outras coisas, escreve usando o português de maneira satisfatória, não se acanhe e envie seus textos para nós.

Tire seus textos da gaveta, chegou a sua oportunidade!

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